O medo católico de um Messias real e transhumano
Não é de hoje que parte da humanidade rica procura a imortalidade física. Pelo menos, desde as buscas históricas pelo Exigir da Vida e pela Fonte da Juventude, as elites investigam meios para se tornarem imortais, sejam para gozar a existência na eternidade com suas fortunas ou não encarar o receio do desconhecido, da morte, de escassez após uma vivência abundante.
Por outro lado, parte dos humanos pobres quer a imortalidade espiritual, para pelo menos justificar as mazelas vividas na vida física, um prêmio por viver de modo miserável, sem se revoltar também contra o sistema religioso, criado pela elite, como forma de conforto espiritual, controle social e meio de arrecadação econômica.
Uma máxima de algumas religiões, inclusive às cristãs, está no fato da existência de um Messias ressuscitado, divino e imortal, prestes a retornar ao mundo físico para salvar a humanidade das desgraças desta Babilônia que chamamos de Terra.
Contudo, além de não existirem certezas científicas dos milagres e ressuscitações do passado, também sequer há sinais lógicos aceitáveis por uma mente sã de que estas entidades imortais como Jesus estão de volta, a caminho da fisicalidade.
Mas, esta crença na imortalidade e volta do Messias faz o povo miserável e a classe média não apenas terem fé para evitar a autodestruição, em um mundo cada vez mais distópico, como também ajuda a manter uma certa legitimidade para que as instituições religiosas se mantenham nos pilares às quais foram criadas: controle e poder.
Entretanto, com a ascensão do transhumanismo pelo menos desde a década de 1920, os líderes religiosos percebem que esta posição pode estar com os dias contados. Naturalmente, graças à tecnologia acoplada ao corpo humano, há esperanças reais à cura de doenças e deficiências.
Em outras palavras, os milagres da tecnologia transhumanista para a ciência médica devem ser comprovados com facilidade, ao contrário dos atos milagrosos de salvadores messiânicos que não sabemos se existiram realmente. É isso que gera repúdio e inveja de certos líderes católico, com relação aos pós-humanistas: A comprovação explícita frente à fé cega.
Eu não estou aqui para defender a elite pós-humanista tecnocrata que anseia manifestar a imortalidade e o endeusamento real, talvez para evitar a morte e um pagamento dos pecados, cujo preço pode ser maior do que as suas fortunas.
Embora surjam avanços bioeletrônicos que possam parecer milagres, há chances significativas de o transhumanismo potencializar a manipulação em massa. Apesar de, mesmo antes da popularização dos chips nos cérebros, os programas de controle mental na mídia com uso de métodos psicológicos já terem alcançado êxito, no século XX.
Porém, acho no mínimo curioso os católicos publicarem o documento ‘Quo vadis, humanitas?’, como um xilique para questionar o futuro da humanidade diante dos “temíveis avanços tecnológicos desumanos”, como paladinos humanistas, após séculos de inquisição medieval e moderna, cujos prováveis juros dos saques ainda deve render no Banco do Vaticano.
Fora o custo humano, incomensurável! Será que as torturas do Santo Ofício tinham mais humanidade do que a disrupção pós-humanista que também salva vidas no mundo real?
As hipocrisias do documento ‘Quo vadis, humanitas?’
A documentação começa com o jogo “assopra e morde”. Primeiro, reconhece a importância da ciência e tecnologia, a fim de melhorar as condições humanas, para depois mostrar a verdadeira intenção do texto: O receio de que o transhumanismo crie ciborgues para substituir os humanos.
Hipocritamente, até parece que nas épocas inquisitórias, alguns seres-humanos não tinham de viver como um ciborgue programado psicologicamente, para jamais falar nada fora do status quo, do contrário os bens seriam confiscados e a fogueira estaria iminente.
Além de que, com a substituição de alguns trabalhos humanos por máquinas, as quedas dos salários de serviços remanescentes para a humanidade e a efetivação da renda universal, não deve sobrar tanto dinheiro para humanos fiéis doarem nas missas de domingo.
A perda do poder para a IA
Na continuação da hipocrisia apócrifa, o Vaticano alerta sobre o fato de a IA processar muitos dados rapidamente, o que torna o processo pouco confiável, em principal pela falta de controle humano.
Tecnicamente, a cautela é válida. Mas, o excesso de controle não garante a exatidão das informações sempre. Pelo contrário, o comando excessivo da igreja de outrora modificou os textos sagrados de forma profunda, para atender aos próprios interesses, com inúmeras traduções, complementos suspeitos e retiradas estratégicas de documentações relevantes.
O apocalíptico texto de Enoque não está incluso no cânone da maioria das Bíblias cristãs. Talvez as viagens celestiais do personagem em um mundo influenciado por anjos caídos era distópico e desumano demais para a tradição conservadora.
Além do mais, conforme o documento do catolicismo, todos os aspectos da inteligência humana podem ser substituídos pela IA, o que levaria as dinâmicas socioeconômicas para um estado descontrolável e ingovernável. Ora, é quase como dizer:
A Inteligência Artificial vai tomar o controle da sociedade que não vai mais levar a sério a nossa ideologia católica dominante. O Estado poderá se tornar laico e tecnocrata, de fato e de direito.
Os católicos ainda manifestam que com a IA pode existir um aumento de “controle e manipulação social”. Sobre esta posição há tantos contra-argumentos que prefiro seguir para o próximo tópico, do contrário eu seria extenso ao ponto de redigir uma “bíblia” por aqui.
Ética e democracia
Os jesuítas também defendem que de certa forma a IA repercute um cenário de infinitas notícias não verificáveis, propiciando o cenário de curtidas desencadeadoras dos conflitos de identidade, no ciberespaço, influenciando na cultura e ética, negativamente.
Quem vê até pensa que no Brasil muitos católicos sempre foram éticos e respeitaram as religiões afro-brasileiras, kardecistas ou a fé oriental, sem reivindicar os supostos direitos contra o outro, o diferente, tolerando as escolhas alheias, sem violência, desde antes de a IA ascender no mundo.
O texto católico também mostra uma profunda preocupação com a atual crise das democracias ocidentais, em xeque pelos confrontos violentos e conflituosos que propicia a IA. Essa posição chega a ser cômica; não é novidade que a hierarquia da igreja católica no Brasil apoiou o Golpe de 1964, motivada pelo anticomunismo e receio de reformas do governo João Goulart. Ademais, se a tentativa de golpe no final de 2022 tivesse funcionado, depois das eleições presidenciais e durante a Copa do Mundo, eu duvido que o posicionamento brasileiro frasciscano seria contrário à posição militar, novamente.
A percepção do saber e a ascensão do neo-gnosticismo
Outro ponto interessante no documento é a perspectiva de que o conhecimento no mundo seja apenas o que a IA consiga processar, de modo que uma espécie de gosto pessoal poderia se sobrepor a princípios “pétreos” éticos, filosóficos ou teocráticos. Todavia, eu vejo de outra forma, por dois motivos:
- esses princípios tidos como pétreos na verdade são moldáveis, conforme o tempo e/ou a evolução da sociedade;
- graças aos avanços tecnológicos, podemos contemplar outras visões de mundo e ampliar o conhecimento, facilmente, mesmo que as fontes sejam de IAs que aprendem de conteúdos diferentes.
Por fim, um final repetido. Como o predador macho alpha que luta para se manter dominante no ecossistema, não é de se espantar que a igreja criticasse a popularização de outras formas de fé, por causa da IA. Afinal, esta tecnologia facilita a criação de diversos vídeos de temas religiosos para vender cursos, monetizar com visualizações, aumentar a fama de lideranças espirituais e/ou apenas ajudar, genuinamente. Logo, a IA cria mais concorrentes para o Vaticano.
Aos católicos, a tecnologia propicia o crescimento de um gigante mercado religioso, sem critério. Espiritismo digital, exorcismos pela internet e o neo-gnosticismo, que, entre tantas “blasfêmias”, considera que a religião seja uma barreira para o progresso e a pesquisa.
O fato é que muitas correntes gnósticas defendem nos vídeos e textos online a ideia de que todos os seres-humanos são deuses ou possuem uma parte do “Todo” na alma, conhecida como a centelha divina, imortal, talvez capaz de mudar a realidade, do metafísico para o físico, tornando assim o humano poderoso como um Messias real, algo perigoso para a sobrevivência da fé católica no único salvador que vem do outro mundo.
Sionismo cristão, IA e transhumanismo
Também existe o outro lado da moeda. Parte da concorrência dos católicos, ou seja, certos evangélicos e pentecostais do sionismo cristão talvez olhem com bons olhos o movimento transhumanista que floresce até em Israel, provavelmente a próxima potência imperialista do mundo, tendo em vista a proeminência tecnológica e a posição como “povo escolhido”.
Talvez, o sionismo cristão não critique tanto o acoplamento de tecnologias no corpo que cura e imortaliza o ser-humano real, pela perspectiva de que mais este pecado acelere o apocalipse e a volta de Jesús, validando o controle e o poder evangélico do mundo. Além disso, isso não parece tão relevante como a luta pela construção do Terceiro Tempo.
Enquanto isso, a própria ortodoxia judaica também aguarda o seu Mashiach, o opositor da cristandade, se é que ele não está por aí, repleto de bioeletrônicos, no aguardo do momento propício da revelação, em meio a um show de hologramas.
Conclusão
O receio da igreja católica é a ascensão de um ou muitos Messias reais, transhumanos, despertos, imortais e capazes de serem livres do controle católico e dos pagamentos de pecados, mesmo estando suscetíveis ao controle tecnocrata. Em outras palavras, isto reduziria o poder ideológico já em queda e questionável da fé católica, assim como do seu salvador que nunca retorna da tumba. Outras religiões talvez até tolerem o salvador transumano, pois buscam a posição como protagonistas da doutrina religiosa dominante no furuto.
No final das contas, neste distópico mundo tecnológico e religioso, os ricos, transhumanistas ou religiosos, querem ser deuses reais e admirados, ao passo que pobres e classe média desejam ser os preferidos de Deus, lá no céu, ingenuamente. Tudo isso por um só motivo, todos almejam a regalia da imortalidade, seja ela física ou espiritual. Quase ninguém quer morrer e virar um mero átomo esquecido no vácuo quântico sem validação social.
Imagem de capa: nickross2021; pixabay.com
Fontes:
TRIBUNECHRETIENNE.COM. QUO VADIS, HUMANITAS? PENSER L’ANTHROPOLOGIE CHRÉTIENNE FACE À CERTAINS SCÉNARIOS SUR L’AVENIR DE L’HUMAIN. Disponível em: https://tribunechretienne.com/wp-content/uploads/2026/03/QUO-VADIS-HUMANITAS.pdf
DENISONFORUM.ORG. What does the Bible say about transhumanism? Disponível em: https://www.denisonforum.org/resources/bible-transhumanism/
YOUTUBE.COM. “A ideia por trás do transumanismo é a imortalidade”, diz Pondé. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=nuyTlP2VOSE
SUPER.ABRIL.COM.BR. O que foi a Inquisição? Disponível em: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-inquisicao
SME.GOIANIA.GO.GOVR.BR. Língua Portuguesa – Argumentos e contra-argumentos. Disponível em: https://sme.goiania.go.gov.br/conexaoescola/eaja/lingua-portuguesa-argumentos-e-contra-argumentos/
AGENCIABRASIL.EBC.COM.BR. CNBB lembra golpe de 64 e posição da Igreja na época. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2014-04/cnbb-lembra-golpe-de-64-e-posicao-da-igreja-na-epoca

Pingback: O som sombrio na mente dos norte-coreanos e a distopia de Morning in Pyongyang - Ciber 10
Pingback: Jiang Xueqin no Youtube: principais previsões do chinês para os próximos anos - Ciber 10