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Contrastes de Christine O Carro Assassino de Stephen King

Seria Christine O Carro Assassino de Stephen King? Ao rever este filme de 1983, que se baseia em um livro do autor, escrito no mesmo ano, lembrei da minha época de infância.

É aquela velha história que talvez você conheça: Década de 90 do século XX, volta da escola, almoço com a avó, cinema em casa e lá estava ele, o melhor filme cult que marcou a minha adolescência.

Me lembro que chamei de Christine o meu primeiro carro, um Ford Fiesta 2006 vermelho e conservado. Ele era bem antigo para a época em que comprei, assim como Christine no longa-metragem, o que cria um intenso contraste estético difícil de ignorar. 

Às pessoas me chamavam de doido! Que nome é este? Você quer evocar um espírito maligno que influencia a sua mente? Eu tentava explicar o sentimento, algo abstrato e difícil de elucidar!

Não coloquei este nome por um instinto de maldade ou porque estava apaixonado pela garota que o meu amigo também amava. Foi outro motivo egoísta.

Como muitos donos do primeiro carro, eu me apaixonei por aquele veículo. Uma paixão inesquecível, igual àquele único amor que a gente ainda espera que volte um dia.

A minha Christine me matou, porque, sem ela, sinto o vazio da morte. A saudade do que se foi, de uma época que não volta mais.

Também por este motivo começo o texto com a pergunta: Seria Christine o Carro Assassino de Stephen King?

Aposto que King também sente falta daquele período, no qual a cibercultura nascia como tendência na moda, nos filmes, nas tecnologias e por todos os cantos. As cidades se tornaram distópicas. Cenários cyberpunks, nos quais o novo se encontra com o velho.

E qual é o modelo de carro de Christine? Se trata do Plymouth Fury 1958, vermelho e branco. No filme, há o design esportivo com duas portas igual ao meu Ford. Na publicação de King, o automóvel tem 4 portas.

Contrastes de Christine O Carro Assassino 1

Embora o filme não apresente tantas tecnologias utópicas nos cenários, sempre que penso na obra me vem à cabeça algo meio high-tech.

Provavelmente seja pela época em que o vi no Brasil. Um tempo de expansão da internet, computadores pessoais, telefonia móvel, consoles de 16 bits e DVDs.

Aqui, surge contraste, o temporal: O filme é da década de 80. Mas, Christine apenas começa a passar no SBT durante a segunda metade da década de 1990.

Naqueles dias, contextualmente a gente brasileira estava no “futuro”, na linha temporal um pouco à frente. Assistíamos filmes dos anos 80 como lançamentos em uma realidade dos anos 90.

Então, isso explica a minha e talvez a sua sensação de pensar em algo um pouco cibernético, ao lembrar de Christine. Também por este motivo, eu comento esta obra, neste blog sobre cibercultura.

Nos anos 80, nascia a cibercultura e a Christine. Na época de 90, a cibernética já era adolescente e o filme quase caduco; seja por ter sido lançado há muitos anos atrás antes de televisionar no Brasil, seja porque reprisava bastante no SBT, “pela primeira vez na tv”.

O contraste musical de Christine O Carro Assassino

Um dos charmes de Christine O Carro Assassino é a música principal, aquele som meio misterioso, repleto de efeitos sonoros, órgãos melancólicos e batidas pesadas. Composição de John Carpenter, diretor do filme.

Acho um pouco difícil classificar em algum gênero musical, mas funciona para a atmosfera de suspense. A sonorização toca diversas vezes no filme. Por exemplo:

  • quando Christine se reconstrói na oficina do Will Darnell, representado por  Robert Prosky;
  • nas perseguições dos rivais que destruíram o carro;
  • no conflito final, na resolução do triângulo amoroso entre Arnie Cunningham (Keith Gordon), Dennis Guilder (John Stockwell) e Leigh Cabot (Alexandra Paul).

Em uma das partes, a música toca logo após a explosão, durante a perseguição entre o ator principal e um dos rivais.

O próprio diretor disse que tudo explodiu em um posto de gasolina de verdade. Não era maquete, o que aumentou a intensidade distópica da obra cinematográfica.

Talvez, a segunda versão composta para o remake potencialize a sensação high tech. A melodia é quase a mesma, com o incremento de distorções de guitarra e outros instrumentos.

Musicalmente, o filme é super contrativo. Pense bem:

O protagonista que depois vira antagonista, Arnie Cunningham, após ser controlado pelo automóvel, passa a escutar diversas músicas dos anos 50 e 60, reproduzidas pelo próprio carro, autonomamente. Porém, de repente surge no ambiente aquele som distópico de Carpenter, um pouco melancólico.

A atmosfera passa a ser uma mistura de tecnologias emergentes na época, com a baixa qualidade de vida emocional dos personagens.

Ali, ninguém está sadio mentalmente: Os pais de Cunningham preocupados, Dennis quase paraplégico, Leigh enciumada, a loucura de Arnie após a destruição de Christine na oficina e assim por diante.

Além do mais, na linha de montagem de Christine, o filme começa com o clássico do rock: “Bad to the Bone”, de George Thorogood & The Destroyers, de 1982. Isso agrega respeito nos primeiros segundos, apesar de a cena retratar o final dos anos de 1950.

Depois, o operário é morto dentro de Christine e surge o som: “Not Fade Away”, do Buddy Holly, de 1957, uma melodia country.

Em segundos, “Not Fade Away” se torna um hard rock, na versão de Tanya Tucker, de 1978. Desta maneira, o espectador é transportado para a época do filme, início da década de 80.

Portanto, nos primeiros minutos do filme o contraste é total entre diferentes épocas, cenários e músicas. Tudo se mistura em um caos sonoro envolvente, capaz de prender a atenção de quem assiste. 

O Constraste da Crise dos Games de 1983

Em termos de cibercultura, um fato curioso é que não vemos os personagens jogando videogames, seja no arcade repleto de fumantes e gordura ou em algum Atari 2600 na casa de amigos.

Mas, dá para compreender. O filme é de 1983, mesma época em que ocorre a conhecida Crise dos Games, orginada pela baixa qualidade nos desenvolvimentos de jogos da Atari, até então líder e dominante de 85% do mercado de consoles.

Traumatizados com a Atari, os jovens daquela época não estavam tão interessados nos games, o que, indiretamente, ficou demonstrado no filme.

Porém, quando eu assistia o filme na década de 90, o mercado de consoles tinha se reestruturado com força. Até a Guerra dos Bits entre Nintendo e Sega havia esfriado.

Já existia o Super Mário consolidado e o PacMan não fazia mais sucesso. A cultura jovem confiava na qualidade dos videogames. Possivelmente, isso também explica a minha nostalgia high-tech pelo filme cult.

O que esperar do remake de Christine O Carro Assassino 1?

Acredito que o remake não deve ser tão nostálgico quanto à obra inicial. Não por causa da qualidade técnica cinematográfica, mas porque estamos em épocas diferentes,

É como ver um vídeo no Youtube do Michael Jackson e depois assistir o novo filme Michael. Por mais que a primeira opção tenha baixa qualidade, a nostalgia está lá.

Também vivemos outras distopias hoje em dia, o que talvez faça o filme ser menos sedutor ao público jovem. Por exemplo:

  • agentes de IA que atrapalham o desenvolvimento de projetos por falta de intervenção humana;
  • carros que quase voam e podem dirigem sozinhos, sem que um espírito precise assumir o volante;
  • desigualdades sociais mais crescentes;
  • crise na geração de emprego mais intensa por causa dos avanços da tecnologia;
  • entre outros pontos distópicos.

Ainda assim, a expectativa é que este novo filme retrate de modo mais fiel o livro de King e não à primeira versão da metragem.

Este é um diferencial: ver que o dono original do carro se torna o protagonista, em vez de ser apenas o espírito coadjuvante que não aparece no primeiro filme como motorista zumbi. 

Christine O Carro Assassino II

Ademais, ao pesquisar na web sobre o assunto, percebemos buscas referentes ao Christine O Carro Assassino II. Na verdade, esta procura é pelo remake. Acontece que certos humanos confundem as coisas.

No entanto, é interessante pensar em como seria o segundo filme, mais cibernético. Imagine, em uma vigilante sociedade tecnomarxista, um jovem hikikomori tem o canal desmonetizado no Youtube, sai do quarto, gasta seus últimos centavos com a compra de Christine e usa o carro para descontar a sua frustração social na sociedade? 

Leia mais

Fontes consultadas

CYBERCULTURABR.WORDPRESS.COM. A Música Cyberpunk. Disponível em: https://cyberculturabr.wordpress.com/2016/01/16/a-musica-cyberpunk/

IMS.COM.BR. Christine, O Carro Assassino. Disponível em: https://ims.com.br/filme/christine-o-carro-assassino/

JOGOVEIO.COM. Guerra de bits: Nintendo x Sega na vida real. Disponível em: https://jogoveio.com.br/nintendo-x-sega-na-vida-real/

CINEPOP.COM.BR. John Carpenter acredita que o remake de ‘Christine – O Carro Assassino’ “será MELHOR” que o seu filme. Disponível em: https://cinepop.com.br/john-carpenter-acredita-que-o-remake-de-christine-o-carro-assassino-sera-melhor-que-o-seu-filme-440745/

Renato Duarte Plantier

Jornalista que atua como redator jornalístico e publicitário, com foco em tecnologia. Possui diversos trabalhos publicados em sites de notícias tecnológicas, além de uma ampla experiência nas campanhas publicitárias B2B e B2C. Profundo estudioso da cibercultura, curioso sobre os impactos sociais do uso de recursos tecnológicos. Defende a popularização da IA como uma ferramenta que deve contribuir para o desenvolvimento humano. Apaixonado por ficção científica.

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