Sintomas de Hikikomori e Tratamento: A Síndrome da Cibercultura
Os sintomas de hikikomori (isolamento social extremo, na tradução livre do japonês para o português, embora este termo também seja usado para designar as pessoas reclusas socialmente, no contexto do Japão) são frutos de uma sociedade cibernética doente.
Com o mundo cada vez mais na web e pela escassez dos postos de trabalhos por causa da IA, a reclusão social está em alta.
Embora as pessoas estejam conectadas online, mesmo quem não é hikikomori vive uma vida cada vez mais rasa, cercada por gente, mas com o sentimento de estar sozinho.
Porém, o estado de hikikomori é mais profundo. Por vontade própria ou movidos pelos efeitos do cérebro decorrentes de fatos sociais traumatizantes, normalmente em consequência do fracasso social, alguns japoneses optam por ficarem trancados no quarto.
Algumas vezes, eles ainda moram com a família. Em outros casos, residem sozinhos e podem até morrer na solidão caso não busquem tratamento.
Entretanto, o fenômeno hikikomori não ocorre apenas no Japão, uma sociedade conhecida por ser rigorosa e julgar as pessoas que não “vencem na vida”. Também existe no Brasil ou outras partes do mundo, nos públicos de diferentes idades.
Felizmente, inclusive por causa da web, as pessoas estão cada vez mais atentas sobre os riscos desta condição. De certa forma, a internet facilita a busca de tratamentos, embora também estimule a reclusão.
O que é hikikomori?
Tecnicamente, hikikomori é uma síndrome de isolamento social extremo.
Para ser um hikikomori, você precisa ficar em confinamento por pelo menos 6 meses. No entanto, em alguns casos a pessoa pode permanecer décadas nesta condição.
De fato, não é incomum que especialistas tratem como um transtorno comportamental que requer intervenção. Apesar disto, hikikomori não está classificado como uma doença mental, oficialmente.
Ou seja, não tem CID (Classificação Internacional de Doenças) e não está no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais).
Nas palavras da psiquiatra portuguesa, Ana Margarida Mota:
É um fenômeno em que indivíduos se isolam nas suas casas, evitando várias situações sociais (como ir à escola e ao trabalho, interagir socialmente fora de casa, etc.).
Hikikomori é o isolamento social decorrente de uma sensação de fracasso. Pessoas que não conseguem um bom emprego, terminam relacionamentos amorosos ou que se sentem fracassadas em algum outro ponto importante da vida, e, se isolam da sociedade.
Esta condição é diferente de um isolamento por escolha, como fazem os eremitas que querem a solidão por questões espirituais ou os concurseiros, que se isolam para estudar a fim de passar nas provas.
Curiosamente, este isolamento é físico. Diversos hikikomoris evitam contato com pessoas da própria família que moram na mesma casa. Mas, os mesmos podem ter uma vida online ativa, repleta de amizades virtuais.
Normalmente, um hikikomori não possui emprego, inclusive remoto, sendo sustentado pela família. No caso das pessoas mais velhas, às vezes o sustento vem da aposentadoria.
Após o período de pandemia, esta situação se intensificou na terra do sol nascente. No Japão, a estimativa é que 1,5 milhões de japoneses são hikikomoris.
Predominantemente, a condição ocorre nos homens, entre os 20 a até 40 anos ou mais. Em menor proporção, afeta as mulheres acima dos 20 anos.
Principais sintomas de Hikikomori
O fato de estar trancado no quarto e não querer contato físico caracteriza a maioria dos hikikomoris. Ainda assim, podem existir outros sintomas que talvez reforcem a identificação de quem sofre desta condição:
- sem vontade de trabalhar;
- dependência financeira;
- vida ativa na internet;
- trocar o dia pela noite;
- ficar dias seguidos sem tomar banho;
- sensação de fracasso na vida acadêmica, profissional e/ou amorosa;
- desesperança sobre o futuro;
- ansiedade só de pensar que precisa falar com alguém pessoalmente;
- depressão e vontade de ficar o dia inteiro na cama;
- falta de libido;
- desejo de se autodestruir.
Obviamente, estes são os sintomas de modo geral! Você pode ter um ou outro e ao mesmo tempo não ser hikikomori. Para um diagnóstico preciso, recomendamos uma consulta ao médico.
Formas de tratamento para Hikikomori
A abordagem terapêutica é o melhor caminho para a cura ou pelo menos amenizar os sintomas de hikikomoris. Com um psicólogo e/ou psiquiatra, o paciente recebe as indicações de tratamento que podem ou não incluir medicamentos.
Não há como negar que, se a pessoa não deseja sair do quarto, talvez a visita física ao consultório seja difícil. De início, o paciente deve preferir o atendimento online.
Além do mais, o governo japonês investe em uma série de iniciativas para reassociar os hikikomoris. Por exemplo:
- encontros com outras pessoas que estão na mesma situação;
- projetos profissionais com outros hikikomoris;
- empregos que exigem menos preparo técnico, tais como acompanhadores de idosos ou treinadores de cães guias.
Infelizmente, no Brasil, não existem muitas iniciativas públicas para o tratamento de um hikikomori. Mas, a própria família pode ajudar a encontrar alguma colocação no mercado de trabalho.
O importante aos familiares é entender que a pessoa não está nesta situação por preguiça ou mera vadiagem.
Provavelmente, a partir do momento em que o indivíduo sente que é útil para a sociedade, os sintomas de hikikomori diminuem e a vida volta a fazer algum sentido.
Hikikomori tem cura?
Depende. Alguns voltam a ter vida normal, como se nunca tivessem sido um hikikomori. Já outras precisam se policiar todos os dias, para manter uma rotina ativa e não voltar ao extremo isolamento social.
Considerações finais
Podemos considerar o hikikomori como um isolamento social extremo, no qual as pessoas sequer saem do quarto para interagir com a própria família.
Predomina no público masculino e tem como uma das causas a sensação de fracasso social.
A partir da pandemia, os casos aumentaram de forma considerável, seja no Japão ou em outras partes da Ásia e do mundo.
Os sintomas do hikikomori às vezes englobam depressão, ansiedade e troca do dia pela noite. Pessoas nesta condição podem ter uma vida online mais ativa e amigos na rede mundial de computadores.
Por um lado, a internet contribui para este público ficar isolado. Em contrapartida, a rede também auxilia aos hikikomoris terem amigos e se sentirem menos depressivos, mesmo que certas amizades não sejam humanas, mas inteligências artificiais agênticas.
O tratamento requer terapia. Em alguns casos, envolve medicação. Atenção: você só deve se medicar após a consulta com o médico.
Além de que, o fato do hikikomori conseguir um emprego ou se encontrar com outras pessoas vivendo nesta mesma situação, talvez ajude na reabilitação.
Enfim, nem todas as pessoas isoladas de modo social são hikikomoris. Contudo, todos os hikikomoris estão reclusos socialmente, em uma prisão criada pela própria mente.
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Fontes consultadas
VEJAABRIL.COM.BR. 1,5 milhões de pessoas vivem reclusas no Japão após a pandemia. Disponível em: https://veja.abril.com.br/mundo/quase-15-milhao-de-pessoas-vivem-como-reclusas-no-japao-apos-pandemia/
YOUTUBE.COM. Hikikomori: The Japanese People Who Choose Extreme Isolation. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=RlR6mMdo5XU&t=14s
SCIELO.BR. Relato de caso de síndrome de Hikikomori em Portugal: uma síndrome primária ou expressão de outra perturbação mental? Disponível em: https://www.scielo.br/j/jbpsiq/a/hSy9tdP4Hjr9QKhLvQkdsLR/?format=html&lang=pt
Imagem de capa: Pixabey; whoismargot.
