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O som sombrio na mente dos norte-coreanos e a distopia de Morning in Pyongyang

“Morning in Pyongyang” (manhã em Pionguiangue, tradução do inglês para o português). Imagine que ao acordar e antes de dormir você escute sempre a mesma música sombria no ambiente?

Talvez a experiência possa ser emocionante nos primeiros dias, mas com o tempo o resultado tende a ser ansiedade, alucinação musical ou síndrome da música presa, embora os psicólogos saibam melhor do que eu os efeitos mentais.

Esta pode ser uma realidade em Pionguiangue, capital, centro político e maior cidade da Coreia do Norte. Lá, rumores indicam que durante todas as manhãs e após o expediente, uma música ecoa pelo ar, através de caixas de sons e alto-falantes potentes. Um som melancólico e lento, como uma trilha sonora da metragem “Nosferatus”.

O nome desta composição é “where are you, dear general?”. Em português podemos traduzir para: “onde está você, querido general?”. Trata-se de um hino icônico da cidade, composição que exalta a adoração e nostalgia dos norte-coreanos por Kim Il-sung, fundador e presidente eterno do país.

Ele morreu em 1994, de infarto do miocárdio, aos 82 anos, mas a saudade é eterna. Ou, pelo menos, o governo se esforça bastante para imortalizar este sentimento patriótico pelo Messias coreano, mesmo que seja na marra, com um som aterrorizante.

A distopia sonora de “where are you, dear general?” e a população armada!

Talvez, no longo-prazo, diariamente despertar com a música da Internacional Comunista ou o jingle “Sem Mêdo de Ser Feliz”, conhecido como “Lula lá”, seria um terror mental até ao petista mais fanático. Da mesma forma, o hino nacional diário para um nacionalista fervoroso geraria apego ao mundo global repleto de hits pós-modernos.

Entretanto, ao comparar com estas músicas simbólicas acima, existe um agravante psicológico no som norte-coreano, a melancolia da melodia. Isso porque a sonorização tem elementos relevantes de uma música distópica. Ela evoca controle totalitário, desumanização e medo.

Logo de manhã, o efeito psicológico de músicas sombrias causam uma necessidade de permanecer em alerta constante. O cérebro não deve descansar, pois a qualquer momento algum inimigo pode atacar e o povo pegar as armas com fins de defender a nação. Apesar do armistício de 1953 que criou a famosa Zona Desmilitarizada, o país ainda está em guerra contra Coreia do Sul, Estados Unidos e aliados.

Ao contrário do que o senso comum ocidental possa pensar, em Pionguiangue, famílias inteiras estão preparadas à linha de fogo, caso necessário.

A cidade abrange uma população de aproximadamente 3 milhões de habitantes, dos quais boa parte integra o exército de 1,2 milhão de soldados em serviço e 600 mil reservistas, segundo a perspectiva do Global Firepower.

Se considerar que a maioria dos adultos na cidade pertence às forças militares norte-coreanas, não é difícil constatar que estas pessoas estão armadas. Então, por que este povo não toma o poder contra a ditadura da família Kim? Acredito em 3 razões:

  • alienação pela defesa à causa comunista que longe de ser ortodoxa é uma dinastia Kim, com rigorosa educação ideológica que estimula o orgulho nacional e o ódio aos inimigos capitalistas;
  • população que não deseja deixar de morar em Pyongyang e de pertencer ao Partido dos Trabalhadores da Coreia, para usufruir de benefícios socioeconômicos que a maioria do país com quase 27 milhões habitantes não pode aproveitar;
  • meios de comunicação alienantes. Por exemplo, o conteúdo doutrinário sem contraponto na programação da TV, a propaganda intensa de que o capitalismo piora a sociedade e os alto-falantes que reproduzem no volume máximo o hino do “salvador da pátria”.

Esta combinação efervescente cria um simulacro no inconsciente coletivo. O artificial passa a pautar o real e manifesta uma realidade paralela, não metafísica, mas na perspectiva de Baudrillard. Por isso, a Síndrome de Estocolmo fica evidente em Pyongyang, um vínculo afetivo pós-trauma difícil de curar após décadas de doutrinações traumatizantes.

Um final de semana de fogo em Pyongyang

Nos fins de semana, após outro concerto matinal sombrio em homenagem ao Kim Il-sung, muitas famílias apreciam visitar clubes de tiro. Há crianças com armas de fogo, para se acostumarem desde cedo com o manuseio, a pressão do tiro e a capacidade de mirar rápido precisamente. Na cidade, o tema desarmamento não é moda, ao contrário do que pensam diversos direitistas e esquerdistas ocidentais.

No episódio “Coreia do Norte”, do documentário “Zonas de Guerra”, da Natgeo, o cineasta franco-americano Diego Buñuel visita um destes clubes de tiro, na capital norte-coreana. Naquele local, com silhuetas metálicas como alvos misturados aos passeios de galos e galinhas, ele pergunta a um dos pais sobre a necessidade de o filho usar armas de fogo, com tão pouca idade. Eis a resposta do norte-coreano:

É vital. Enquanto houver imperialismo temos que saber defender o nosso país dos americanos. É melhor estarmos preparados.

Ademais, ao final do episódio, durante uma confraternização com parte da população que talvez estivesse sorrindo de modo forçado para cumprir ordens estadistas, Buñuel teve que se apresentar como francês e esconder a nacionalidade americana, para reduzir os riscos de linchamento, diante das câmeras e do repúdio norte-coreano com relação aos norte-americanos.

Morning in Pyongyang e cenário estético artificial

Obviamente, por ser um país fechado é difícil saber até que ponto há veracidade, quanto ao fato da música tocar todos os dias e todas as noites, em determinados horários. Também não sabemos se a sonoridade abrange apenas a capital ou está ubíqua como poluição sonora na rotina de todo o país.

No entanto, ao levar em conta a abundância de vídeos amadores dos supostos visitantes ou moradores, além de alguns que parecem até oficiais, não parece ser mentira, mesmo porque a prática alienante tem tudo a ver com métodos totalitários para manipular a população psicologicamente, típicos de um destes cenários de obras como “1984”, de George Orwell.

Nestes vídeos, escutamos o som melancólico em diversos cenários, seja quando está amanhecendo, com a luz solar mais clara de manhã ou de noite. Vemos centros urbanos, universidades, estações de trens ou metrô, prédios, estátuas, entre outros pontos da cidade.

Normalmente, os títulos destes vídeos no Youtube são “Morning in Pyongyang” ou alguma variação com estas palavras. Enquanto a música se reproduz nestas gravações, observamos registros diários da rotina norte-coreana, com a movimentação de poucas pessoas, em regiões quase vazias, como uma cidade-fantasma, sem vida.

Há poucos veículos que trafegam ou estão estacionados. Algumas ruas próximas a grandes estruturas não possuem sequer uma pessoa, bicicleta ou pet. Ninguém nas janelas de apartamentos sem varandas e plantas. No geral, tudo parece maquiado, artificial como um simulacro.

Existem ainda vídeos que retratam cenários noturnos, o que dá a entender que a música também toca de noite. Nos registros, vemos uma cidade noturna quase apagada totalmente, talvez pela escassez de energia que há tempos é um problema infraestrutural no país.

Em geral, nos grandes centros urbanos ocidentais temos o costume de ver muita vida, luzes intensas e empolgação. Mesmo no Oriente, por exemplo, em Tóquio, a 1.255 km e a menos de 3 horas de voo direto de avião para Pyongyang, podemos contemplar uma verdadeira antítese na experiência noturna, assim como em Seoul, a cerca de poucos 200 km.

Nas noites de Pyongyang, quase tudo apaga rápido e as pessoas devem dormir cedo, para ao acordar, sair do tédio e ter o que fazer. Mas, a monotonia continua, pois seja de noite ou de dia, a música do Kim Il-sung vai estar no ar, um disco que toca sempre a mesma música, não ritmo do samba de uma nota só.

Considerações finais

Por tocar com tanta frequência e intensidade, o som distópico, “where are you, dear general?”, não sai da mente dos norte-coreanos em Pyongyang.

De certa forma, todo o ambiente vazio da cidade junto com este hino sombrio ajuda a manter o estado de alerta vitalício, quanto à necessidade da população em cumprir as responsabilidades sociais junto ao partido.

Como resultado, a mente do povo vive ansiosa com a iminência de novos conflitos bélicos ou para cumprir as obrigações civis, impecávelmente, do contrário a pena de morte pode ser uma pena judicial ou extrajudicial, sem julgamento oficial. Pelo menos, tenho a impressão de que a música realiza esta ameaça, de forma subliminar.

Na Matrix, alguns prisioneiros despertos querem fugir, mas também existem àqueles dispostos a defender o sistema que aprisiona e oprime, custe o que custar, mesmo que o preço da derrota seja a liberdade.

E mais, mesmo sem tantos alimentos, a energia para a luta é vigorosa, pois a vitória consagra o cidadão comum para uma posição superior no partidão, para uma mesa mais farta, manifestando o sonho de ele se tornar um opressor após ser oprimido, pela educação norte–coreana que domina em vez de libertar.

Abaixo veja um vídeo com o hino “where are you, dear general?”:

Imagem de capa: Alex_Berlin; Pixabay.com

Fontes:

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YOUTUBE.COM. Morning in Pyongyang, North Korea. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=i82PBpw2Vg0

YOUTUBE.COM. Pyongyang station, 6h00 in the morning. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lmcZoTYYl_M

YOUTUBE.COM. Where are you, Dear General? Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5u2UhBMZdjc&list=RD5u2UhBMZdjc&start_radio=1

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Renato Duarte Plantier

Jornalista que atua como redator jornalístico e publicitário, com foco em tecnologia. Possui diversos trabalhos publicados em sites de notícias tecnológicas, além de uma ampla experiência nas campanhas publicitárias B2B e B2C. Profundo estudioso da cibercultura, curioso sobre os impactos sociais do uso de recursos tecnológicos. Defende a popularização da IA como uma ferramenta que deve contribuir para o desenvolvimento humano. Apaixonado por ficção científica.

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