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Tecnomarxismo: O erro de Jiang Xueqin

O uso do termo tecnomarxismo parece ser uma nova tendência online. Graças ao professor chinês Jiang Xueqin. Ele costuma usar a palavra para definir o movimento da elite global tecnológica que pretende dominar o mundo na base do totalitarismo. Esta ideia é conspiracionista, até então.

No tecnomarxismo de Jiang, o uso do marxismo ideológico funciona como uma arma ao capitalismo tecnocrata, a fim de derrotar o socialismo e a classe média, principais barreiras para a ascensão da elite tecnológica.

Esta perspectiva do chinês difere dos conceitos de tecno-comunismo ou de outras variações morfológicas, nas quais os trabalhadores usam a tecnologia para libertar o tempo humano, em vez de expandir a exploração.

Não podemos negar que Marx tinha as suas rixas com os socialistas utópicos, o que poderia ser um ponto a favor de Xueqin.

Entretanto, em muitos vídeos, Jiang também prevê a expansão do nacionalismo e fechamentos de blocos comerciais. Assim, como o marxismo que é univeral se encaixa no mundo previsto a ser fechado e nacionalista, conforme o chinês? Simplesmente, a conta não fecha! Há contradições nas ideias.

Karl Marx e tecnologia: mais valia-relativa e vigilância

O operário não é tão ingênuo. Partindo da premissa de uma ideia de ditadura do proletariado vigilante, apropriada pela elite tecnocrata para um golpe global, rapidamente proletários e lumpenproletariados perceberiam o engodo, do controle estatal movido pelo capital, o que colocaria em xeque a concepção de tecnomarxismo ou do uso da tecnologia para emancipar trabalhadores e salvar a humanidade.

Além de ser um dos maiores contadores de história do capitalismo, Karl Marx fez diversos alertas sobre o avanço tecnológico em detrimento dos interesses da classe trabalhadora.

Por exemplo, a ideia de mais-valia relativa, na qual os capitalistas intensificam o ritmo de trabalho no intuito de obrigar funcionários a produzirem mais em menos tempo. Mas, como isso é possível? Com o avanço da tecnologia.

Filmes famosos denunciam a mais-valia relativa. O primeiro que vem à mente é “Tempos Modernos”, no qual há uma cena em que Charlie Chaplin quase enlouquece, ao apertar parafusos nas peças, com um ritmo frenético, na esteira da linha de montagem automotiva.

Em outro filme, Metrópolis, o protagonista Freder Fredersen, filho de John Fredersen, endoidece ao tentar sincronizar os ponteiros de um relógio, em movimentos exaustivos, repetitivos e rápidos, para evitar o desligamento da máquina.

Diariamente, eu percebo este movimento no meu trabalho como redator jornalístico e publicitário. Antes, era necessário apenas seguir o briefing, pesquisar o assunto e redigir. Agora, além destas outras funções, pelo avanço da tecnologia também preciso pesquisar palavras-chaves, fazer funções de social media, analisar os resultados em ferramentas online, entre outras tarefas. É quase o serviço de 10 pessoas executado por apenas uma.

Mas, ao levar em conta a vigilância que tem mais a ver com as ideias tecnomarxistas de Jiang Xueqin, temos a obra do socialista George Orwell, 1984, levada às telas do cinema pelo diretor Michael Anderson. Nela, há um sistema de alta vigilância, em Londres, onde nasceu o capitalismo.

Apesar de ser um crítico feroz do stalinismo, Orwell nunca mencionou o termo tecnomarxismo, considerou a obra 1984 como representação de uma sociedade comunista ou indicou que o Big Brother era Stalin, necessariamente, usando a tecnologia para vigiar e controlar os trabalhadores. Na prática, a obra faz alusão a qualquer estado totalitário.

Significado de tecnomarxismo conforme Jiang Xueqin

Nos vídeos com previsões de Jiang Xueqin no Youtube, o professor chinês define o tecnomarxismo como a infiltração de marxistas em movimentos da extrema direita, para dar um golpe na burguesia, não para libertar o proletariado, mas sim a fim de formar uma nova elite tecnocrata dominante.

Praticamente, significa usar a teoria marxista como prática para estabelecer um domínio global, com uso da tecnologia. Por exemplo, Xueqin acredita que o Elon Musk é um destes marxistas infiltrados, apesar das aparências.

Cresce a ideia de que os robôs devem substituir o trabalho humano. Mas, apesar de reconhecer esta substituição, Musk faz questão de enfatizar a criação de uma renda universal para a humanidade e um estado de bem estar social, jamais visto antes, quase como o sonho do proletariado, que em vez de ser explorado vai conseguir viver bem sem trabalhar. Um mundo onde ninguém tem nada e todos são felizes.

Porém, uma coisa é um estado ser formado para apoiar a ascensão da classe operária, mesmo que seja na base da ditadura proletária. Outra coisa consiste em parte da elite controlar o planeta com tecnologias avançadas e convencer que no mundo distópico o pobre será feliz, satisfeito socialmente.

Ao menos no viés ortodoxo, não há como considerar tecnomarxista uma sociedade na qual Big Techs extraem valor dos dados de trabalhadores para vender produtos e que também aplicam:

  • tecnofeudalismo: plataformas que cobram taxas de trabalhadores que precisam do uso para conseguir o sustento;
  • colonialismo digital: plataformas estrangeiras que dominam nações tecnologicamente;
  • automação: substitui o trabalho humano por robôs e retira o sonho de a classe operária prosperar;
  • IA: aplica vigilância e um sistema de controle, no qual se o cidadão não segue as regras dos capitalistas tecnocratas perde pontuação social, assim como o acesso a bens e serviços.

O erro de Jiang Xueqin

Talvez, Jiang Xueqin esteja certo na concepção de que uma elite tecnocrata deseja impor um domínio global  Porém, ele erra ao levar em conta que uma das práticas para estabelecer este domínio é o tecnomaxismo.

Assim, acredito que o termo tecnomarxismo deve ser usado para denominar o uso da tecnologia, no sentido de emancipar trabalhadores a uma vida mais abundante e igualitária, de forma geral, sem distinção de classe.

Quando o professor define como tecnomarxisma a prática de vigiar o povo com tecnologias avançadas, ele quase que considera o marxismo como a única doutrina que gera uma ditadura intensa. A impressão que fica é: Se o mundo será totalitário, então deve ser tecnomarxista, ou seja, se relacionar ao Marx.

Mas, também são ditadores e totalitários os fascistas, alguns tipos de socialismo e até certas formas de capitalismo. 

Futuramente, este mundo tecnocrata pode ter classes definidas, com uma distância ainda maior entre pobres e riscos. Portanto, nele, o controle tecnológico tem a ver com um tecnomonopolismo, sem espaço para a concorrência do capitalismo liberal.

Também pode ser um planeta tecnofascista, pois em muitos vídeos contraditórios o chinês prevê a ascensão do nacionalismo, do futurismo, das guerras e dos fechamentos de blocos comerciais, características que diferem do comunismo universal.

Portanto, só não podemos dizer que será um planeta tecnomarxista, sem distinção de classes e propriedade privada, pois a elite vai continuar proprietária, apenas os pobres devem permanecer sem nada e serem “felizes”.

O fato de sobrar tempo por não ter trabalho disponível e existir uma assistência mínima, em um mundo ainda desigual, não gera o êxito social da classe trabalhadora.

Imagem de capa: Pixabay.com; TheDigitalArtist

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Fontes:

YOUTUBE.COM. Luan Gomes. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=rslIHsvxiPc

MARXISTS.ORG. Manifesto do Partido Comunista. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm

GEPEC.UFSCAR.BR. O Capital. Disponível em: https://www.gepec.ufscar.br/publicacoes/livros-e-colecoes/marx-e-engels/o-capital-livro-1.pdf

ESQUEDADIARIO.COM.BR. Teoria marxista. A tecnologia nos libertará? Karl Marx e o fragmento sobre as máquinas. Disponível em: https://www.esquerdadiario.com.br/A-tecnologia-nos-libertara-Karl-Marx-e-o-fragmento-sobre-as-maquinas

POLITIZE.COM.BR. Mais valia: o conceito central da teoria marxista. Disponível em: https://www.politize.com.br/mais-valia/#:~:text=A%20mais%20valia%20representa%20a,quais%20ele%20n%C3%A3o%20%C3%A9%20remunerado.

YOUTUBE.COM. Tempos Modernos. Charlie Chaplin. 1936. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=i15UCTIdfwI

YOUTUBE.COM. Metrópolis. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=8qi5kgZJk20

DHNET.ORG.BR. 1984. George Orwell. Disponível em: https://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/marcos/hdh_george_orwell_1984.pdf

REPOSITORIO.UFAL.BR. Burguesia e proletariado: Um estudo sobre as classes em O Capital. Livro 1. Disponível em: https://www.repositorio.ufal.br/bitstream/riufal/4622/1/Burguesia%20e%20proletariado%20um%20estudo%20sobre%20as%20classes%20em%20o%20capital%20%E2%80%93%20livro%20I.pdf

Renato Duarte Plantier

Jornalista que atua como redator jornalístico e publicitário, com foco em tecnologia. Possui diversos trabalhos publicados em sites de notícias tecnológicas, além de uma ampla experiência nas campanhas publicitárias B2B e B2C. Profundo estudioso da cibercultura, curioso sobre os impactos sociais do uso de recursos tecnológicos. Defende a popularização da IA como uma ferramenta que deve contribuir para o desenvolvimento humano. Apaixonado por ficção científica.

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